segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Relatório do plantio do dia 07/11//2009 do Projeto Agro Floresta no PNLO da UDV - Rodeador DF

Relatório do plantio do dia 07/11//2009 do Projeto Agro Floresta no PNLO da UDV - Rodeador DF

Pré Núcleo Luz do Oriente, um dos pólos das ações de reflorestamento do Projeto Agro Floresta criado UDV , realizou no dia 07 de Novembro de 2009, o plantio de aproximadamente 40 mudas de amora, pés 60 de mandioca , 50 pés de margaridão, 15 bananeiras, 30 mudas de mamão e varias sementes de espécies nativas do cerrado em uma área localizada nas proximidades de Rodeador, Brazlandia no PNLO da UDV . O presente trabalho teve como objetivo arborizar uma área degradada por meio da implantação de espécies florestais nativas, propiciando recomposição da paisagem.

O responsável técnico é Bruno Reis, que orientou a comunidade na abertura de covas, espaçamento,
A escolha de espécies utilizadas teve como objetivo a atração de fauna e a produção de frutos nativos para elaborar produtos à serem consumidos aos sócios e visitantes. A metodologia utilizada foi a de sistema agro-florestal.
Para que o projeto tenha continuidade e para que nenhum fator ambiental impeça o crescimento das mudas e atrapalhe o reflorestamento, monitoramentos e fiscalizações das mudas já plantadas através o acompanhamento do crescimento das mesmas serão realizados para assegurar a recomposição da vegetação.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Por baixo dos panos

A nova geração de jovens iranianos ensaia um "liberou geral", apesar da opressão do regime

14.07.2009 - Texto por Pedro Doria - Fotos Amir Farshad Ebrahimi




"Onde é a festa?”, perguntou Pardis. A iluminação no jardim, quase nenhuma. Àquela hora da noite, não era possível enxergar mais o desnível do gramado. Sua amiga Sanaz não respondeu. Pardis tropeçava aqui e ali, enquanto seguia as batidas abafadas de música tecno à frente. Foi aí que viu a casinha da grande sauna. O vapor saía pelas frestas, assim como uns salpicos da luz forte no interior. Sanaz tirou seu véu e insistiu que a amiga fizesse o mesmo. Aí desfez-se do mantô muçulmano. “Estamos seguras”, ela disse. A mansão pertencia a um clérigo da alta cúpula do regime iraniano – mas ele não estava, nem sua mulher. Quem dava a festa era sua jovem filha. A Polícia Moral do país não teria coragem de dar uma batida ali.

Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.

Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.



O choque entre o velho e o novo, o tradicional e o ocidentalizado no universo feminino iraniano



Revolução, jovens e sexo

Essa é a geração que, em junho, foi às ruas cobrar a fraude na reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, diante de aiatolás desesperados por algum controle. Dois terços dos iranianos têm menos de 30 anos, mais de 50% têm menos de 20. A idade média no país é 26. E eles querem liberdade.

Pardis foi criada como todos na comunidade iraniana que chegou aos EUA entre 1979 e 81, após a Revolução Islâmica que derrubou a ditadura laica do xá Reza Pahlavi. Ouviu por toda a vida que os fundamentalistas haviam tomado as rédeas e que não havia repressão maior do que aquela do Irã. E, no entanto, cresceu também ouvindo tudo o que uma “moça iraniana” não fazia. Adolescente, jamais pôde apresentar um namorado à família. Mas, apesar dos aiatolás, o país lá longe mudara enquanto comunidade no exílio parou no tempo. “Quando cheguei ao Irã pela primeira vez”, ela conta, “eu não conseguia entender minha identidade, se era americana, se era iraniana. Lá, descobri que a vida era normal, meus pais é que eram caretas.”

A história se impôs ao regime inaugurado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. A guerra entre Irã e Iraque matou tantos, entre 1980 e 88, que uma geração de homens desapareceu. Hoje, o Irã é jovem e antenado. Mesmo que a polícia moral quisesse prender todos, não conseguiria. “São eles, os jovens”, conta a antropóloga, “que chamam o que está ocorrendo de Revolução Sexual.” Pardis acaba de lançar um livro sobre as mudanças, um relato antropológico chamado Passionate Uprisings.

Uma revolução sexual não se faz apenas de sexo, amor e busca pela paz – ela tem características mais profundas. Um elevado número de mulheres com formação superior, por exemplo, que buscam espaço no mercado de trabalho. O Irã as tem em número cada vez maior. Revoluções sexuais também mudam a conversa. Sexo deixa de ser assunto tabu. Nas suas últimas visitas, quando já decidira escrever o livro, Pardis conversou com inúmeros pais de jovens. Encontrou-os mais francos do que seus próprios pais, nos EUA, que jamais falam sobre sexo.

Há duas vidas em Teerã. A primeira é aquela na rua. Os homens têm seus braços cobertos, usam barbas. As mulheres cobrem-se todas. Mas debaixo do mantô e do véu, há unhas pintadas, jeans justos – às vezes, minissaias. Aquilo que a vestimenta islâmica não revela num fingir-se religioso é apresentado no interior das casas e apartamentos. Nas festas, há concertos de rock, leitura de poesias, exposições. Dança-se à música alta.

Xaveco da Polícia Moral

Nem toda festa é como aquela da grande orgia, mas em toda há um quarto ou dois onde os casais se encontram. Sexo entre namorados se arranja. Mas, se a festa não é numa mansão cujo dono é do alto clero, a possibilidade de uma batida da Polícia Moral está sempre ali. Em sua primeira viagem, Pardis conheceu uma vítima: uma moça bonita, sentada ao seu lado no salão de beleza (todas as jovens em Teerã frequentam toda semana um salão). A moça fora flagrada num quarto, numa festa, com o namorado. Passou uma semana na cadeia. Carregava nos tornozelos e costas as marcas da chibata.



Mulher é detida pela polícia moral na capital Teerã





Num país com os índices demográficos do Irã, tudo muda muito rápido. Naquela sua última visita de 2007, ela vinha da festa com uma amiga, no carro. As duas tinham o proibido álcool no hálito, então o farol do carro atrás piscou e veio o terror: eram dois homens da Polícia Moral. Elas pararam, os dois jovens saltaram e se encaminharam. Não queriam levá-las para a prisão. Queriam seus telefones. Era uma cantada. Os velhos deixam a função e os jovens que a assumem vivem a mesma cultura do underground de Teerã.

Sexo casual é mais complicado para aqueles que não querem as orgias. Mulheres da alta classe do norte de Teerã tomam rumo da periferia ao sul para se encontrar com homens com quem não convivem socialmente. O mesmo fazem as meninas da periferia que vão ao norte. O sexo entre classes resolve o anonimato. Sexo entre mulheres também está ficando comum – mas, lá, as jovens sequer o veem como um flerte com a homossexualidade. É uma extensão natural da amizade discretamente apoiada por todos.

Na televisão, o presidente Ahmadinejad diz que não há gays no Irã. Ou proíbe que mulheres frequentem estádios de futebol. Mas, sem que ele possa controlá-la, a revolução sexual continua seu curso. “Um dia, essa garotada terá o comando do país”, diz Pardis. “É impossível prever as mudanças que eles trarão.”


Fonte: Revista Trip

"Aquarela do Brasil" - Pato Donald e Zé Carioca

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Você entende as expressões de um robô?

Fonte: http://info.abril.com.br/noticias/ciencia/voce-entende-as-expressoes-de-um-robo-19102009-40.shl

Você entende as expressões de um robô?





Getty Images
Você entende as expressões de um robô?
O robô C3PO, de Guerra nas Estrelas: é fácil compreender o que seu rosto que dizer?
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Big Brother Belchior


Antes de sair de casa, peça a bênção a Patricia Poeta


Francisco Bosco

No famoso plano-sequência de Profissão: Repórter, o assassinato de David Locke é narrado de modo indireto, por meio de uma janela com grade. Mas a força da cena não está exatamente em seu caráter indireto - o qual sempre se exalta - e sim na mediação da janela gradeada. Como se sabe, o repórter David Locke aproveita-se da morte de um desconhecido em um vilarejo remoto na África para falsificar sua própria morte e assumir a identidade do outro.

O que está em jogo para ele é uma tentativa de sair radicalmente de si. Como repórter, ele viaja o mundo fazendo entrevistas, matérias, documentários, mas sente que os deslocamentos geográficos e culturais não o levam a afastar-se de si próprio, pois ele, em suas palavras, acaba codificando toda a diferença nos seus (dele) próprios termos, fazendo-a desembocar sempre de volta no registro da identidade. Ao valer-se da morte de um desconhecido para tentar desconhecer-se, Locke vê-se herdeiro imediato da vida desse outro, David Robertson, um traficante internacional de armas.

Passa, então, a ser perseguido por agentes de um governo africano, pois Robertson fornecia armas para uma guerrilha que se lhe opunha. Ao mesmo tempo, a ex-mulher de Locke descobre que a morte de Robertson foi falsificada e começa ela também a persegui-lo. Locke não demora muito para concluir que sua tentativa fracassara. Não lhe bastara colar sua foto no passaporte de outro para transformar-se em outra pessoa. Pior, agora ele estava multiplamente emparedado: dentro de si mesmo, dentro da realidade de outro (mas não de sua subjetividade) e dentro de seu passado, que não pudera aniquilar. O emparedamento descortina-lhe o nome: David Locke, Locke D., ou seja, locked, trancado.

É por isso que o famoso plano-sequência é narrado através da janela gradeada, que assoma, então, como o correlato material da impossibilidade existencial a que se lançou Locke. Dentro do quarto, ele dorme, enquanto, pelas grades - portanto, da perspectiva dele -, vemos a realidade que lhe assaltaria, mas que ele não podia alcançar. Vemos, então, os agentes chegarem, andarem na direção do hotel e saírem do enquadramento.

Em seguida, ouvimos um tiro. A partir daí há uma extraordinária inversão de perspectiva. A jovem que Locke conhecera em Barcelona e passara a acompanhá-lo em sua fuga entra no quarto no mesmo momento que a ex-mulher dele, acompanhada da polícia. O policial pergunta, primeiro à ex-mulher: "Você o reconhece?", ao que ela responde: "Eu nunca o conheci". Em seguida, a mesma pergunta é dirigida à jovem, e sua resposta é: "Sim". Essa cena é narrada de fora para dentro da janela gradeada.

Da perspectiva da ex-mulher, havia também um emparedamento em Locke; ela nunca pôde conhecê-lo, embora tivesse vivido com ele muitos anos. Já a jovem, cujo nome não vem à tona, e a quem Locke se apresentara sob um nome falso, afirma, sem hesitar, tê-lo conhecido (confirmando uma frase de Barthes segundo a qual "conhecer alguém é conhecer-lhe o desejo").


Onde está Belchior?

O filme de Antonioni é de meados dos anos 1970. Sua questão é existencial: é possível reinventar-se completamente, ser radicalmente outro? A resposta do filme é não - mas não é isso que desejo investigar aqui. Quero chamar atenção para o fato de que, mesmo sendo Locke um repórter, a mídia não é uma questão fundamental para o filme. As forças que lhe saem à captura são a polícia, os agentes do governo africano e sua ex-mulher, ajudada pela embaixada. Locke consegue sair da África e ir para Londres, daí para Barcelona, daí para cidades pequenas na Espanha, até ser encontrado - e tudo isso se passa em registro de experiência privada. Agora cortemos para agosto de 2009, onde vamos acompanhar outra perseguição, bem diferente.

A primeira notícia de que Belchior havia desaparecido foi publicada num site. Nele, depoimentos de amigos e parentes afirmavam desconhecer o paradeiro do cantor. Daí em diante pipocaram novas matérias. Os maiores jornais do país noticiaram o sumiço, o Fantástico fez uma matéria, até a imprensa estrangeira repercutiu o assunto. Novas informações começaram a aparecer: Belchior teria dívidas com hotéis e estacionamentos. Especulações também surgiram: com a carreira em baixa, o cancionista estaria tentando criar um factoide que o levasse novamente aos holofotes.

E não faltaram, é claro, as piadas na internet: numa delas, Belchior figura entre os personagens do seriado Lost; noutra, murmura-se que seu desaparecimento faz parte de um mistério mais amplo, a envolver o sumiço de outros cantores, como Biafra, Silvinho (aquele do ursinho Blau Blau) etc. O mistério levou apenas três semanas até ser esclarecido, pelo Fantástico, que na edição do dia 30 de agosto revelou o paradeiro de Belchior e arrancou dele uma entrevista. Ao assistir à reportagem do Fantástico, fiquei ao mesmo tempo indignado e apavorado.


Vigiar e perseguir

Antes de entrar a reportagem, um solene Tadeu Schmidt anuncia o fim do mistério: Belchior foi localizado pelo Fantástico. Em seguida, Patrícia Poeta, em tom de reproche maternal, diz que o cancionista, "que se afastou da família, dos amigos e dos fãs, deu as suas razões à repórter Sônia Bridi". Pronto, começou o pesadelo.

O que vem a seguir é uma demonstração assustadora do funcionamento de uma sociedade de controle, onde um desvio existencial, mesmo que não diga respeito a mais ninguém, é tornado objeto de visibilidade, escrutínio, sarcasmo e julgamento públicos. É importante observar que a perseguição a Belchior não partiu da Justiça, a fim de que ele saldasse suas possíveis dívidas, mas sim da mídia; isto é, não foi movida por um legítimo interesse público (que não se confunde com uma espetacularização pública), mas por uma mistura de jornalismo de fofoca e vigilância coletiva, por meio da qual se pode ler um sintoma, a que voltarei.

O Fantástico recebeu pistas de pessoas que haviam estado recentemente com Belchior. Por meio delas, reuniram-se evidências de que ele estivera nas últimas semanas no Uruguai. Sim, evidências, porque foram enviadas fotos de Belchior em situações privadas (com o acoplamento de máquinas fotográficas em celulares, todo cidadão que os possui torna-se um delator em potencial). Em seguida, os repórteres receberam um e-mail anônimo que revelava o paradeiro de Belchior: ele estaria na pequena cidade de San Gregorio de Polanco, nos pampas uruguaios. O Fantástico não demorou a achar a pousada em que Belchior estava hospedado. Ao ligar para ela, alguém disse que o (a esta altura) fugitivo estivera lá, porém já fora embora. "Mas era mentira", conta a repórter Sônia Bridi, que, desconfiada, vai até lá e chega à porta de Belchior com a câmera ligada.

Já então era óbvio que Belchior não queria ser encontrado. Mas o desejo - e esse desejo não deve ser reconhecido como um direito? - de privacidade não conta para o Fantástico. A repórter bate na porta, Belchior não quer conversa, mas ela insiste, ronda a casa, sussurra com a voz mais cínica do mundo: "A gente veio de tão longe pra te encontrar, tem tanta gente te procurando lá no Brasil...".

Belchior deve ter resistido por horas, pois as primeiras imagens são ainda de dia, e quando ele finalmente cede já é noite. Sai de casa e quase podemos ouvir o famoso bordão futebolístico: "Taí o que você queria". O Fantástico triunfa, o que há de mais desrespeitoso nas pessoas também. E Belchior? Com uma aparência existencialmente saudável, ironiza com sutileza e bom humor o absurdo da invasão; diz ter achado estranha a primeira matéria do Fantástico (que ele viu pela internet), que aquilo nada tinha a ver com ele, e que ele não é uma celebridade.

Em seguida, recusa-se, com coragem firme, a responder a questões a respeito de sua vida privada. Num momento antológico, constrange a repórter - e, por extensão, espero, todos que compartilhavam ali a posição dela - ao afirmar que não tem interesse pela vida privada de niguém. Esclarece que sua presença ali se deve a um trabalho "muito especial" que está sendo desenvolvido por ele, a tradução de todo o seu cancioneiro para a língua espanhola, aproveitando para lembrar sua ligação com a América Latina, citando seu verso "Eu sou apenas um rapaz latino-americano".

Da perspectiva do perseguidor, o ponto central da cena reside na seguinte pergunta da repórter: "Você não deixou de fazer contato com sua família, com seus amigos, nesse período?". Essa pergunta retoma o tom de mamãe controladora de Patrícia Poeta. Nela está implícito nada menos do que isso: ninguém tem o direito de abandonar (mesmo provisoriamente) sua família e seus amigos, e se tiver essa audácia será julgado em público por ela. Ninguém tem o direito de em algum momento querer reinventar-se, ou simplesmente querer afastar-se, sem pedir a bênção aos demais.

A perseguição a Belchior, então, parece assumir um caráter sintomático: é precisamente porque todo mundo tem, já teve, terá ou pode ter esse desejo de reinventar-se, e não consegue realizá-lo ou nem ao menos assumi-lo, que aquele que o levou adiante deve ser perseguido, descoberto e recolocado em seu lugar. Deve ser lembrado de que tem satisfações a dar e de que, no limite, sem o consentimento dos outros, não pode se afastar deles. Pois os outros não querem ser lembrados de suas próprias covardias ou mediocridades existenciais.

É tênue a fronteira entre a curiosidade, o jornalismo e o desrespeito brutal. É revoltante (e apavorante) que essa questão não seja sequer colocada pelos que estão prestes a atravessá-la. Nos anos 1970, David Locke estava trancado em sua subjetividade; o caso Belchior vem nos lembrar que, hoje, estamos trancados na realidade, ao ar livre, gradeados por milhares de olhos que nunca se fecham.


franciscobosco@terra.com.br


Fonte: Revista Cult - Edição nº 140

Barack Obama, Internacional, John Galt, Política, Racismo, USA



O que em qualquer outro país democrático ocidental seriam grupos marginais, propícios para o manicômio, nos EUA contam com grandes meios de comunicação – como a cadeia Fox – e capacidade de mobilização massiva para expressar seus delírios ideológicos. Há algumas semanas, estes grupos capazes de detectar comunistas nos locais mais inesperados, estão em pé de guerra contra a reforma da saúde, proposta por Obama, que em qualquer país europeu não chegaria a merecer o título de social-democrata. O artigo é de Pablo Stefanoni.

Pablo Stefanoni / Pulso Bolivia

São os mais conservadores entre os conservadores, os mais libertarians entre os libertarians, os ultras, a direita da direita mais recalcitrante, os que não são chegados a sutilezas e acreditam que o governo de Barack Obama – flamante Prêmio Nobel da Paz – está levando os Estados Unidos ao comunismo e ao nazismo ao mesmo tempo, os que negam o primeiro presidente negro nascido no Hawaí...Mas o que em qualquer outro país democrático ocidental seriam grupos marginais, propícios para o manicômio, nos EUA contam com grandes meios de comunicação – como a cadeia Fox – e capacidade de mobilização massiva para expressar seus delírios ideológicos. Há algumas semanas, estes grupos capazes de detectar comunistas nos locais mais inesperados, estão em pé de guerra contra a reforma da saúde, proposta por Obama, que em qualquer país europeu não chegaria a merecer o título de social-democrata, mas que, nos EUA, é considerada pela direita o primeiro passo na direção de um Estado totalitário. Chamam esse “movimento de resistência” de Tea Party, uma referência ao motim do chá desencadeado em 1773 contra o aumento de impostos para vários produtos – incluindo o chá – e que é considerado o prelúdio da luta pela independência.

A campanha de ódio contra Obama – diz o diário El País – colocou em pé de guerra locutores de rádio, apresentadores de televisão e internautas enlouquecidos da extrema-direita norteamericana. Rush Limbaugh, com seu microfone, ou Glenn Beck – o novo homem duro dos radicais – convocam a insurreição desde os estúdios da Fox. “Estão nos roubando a América e quiçá seja muito tarde para salvá-la”, disse Beck a seus seguidores em uma intervenção radiofônica. O fundamentalista Limbaugh chegou inclusive a falar de racismo invertido e usou como exemplo para acabar com o governo democrata um incidente onde estudantes negros golpearam um garoto branco em um ônibus. Limbaugh pediu “ônibus segregados”. “Nos Estados Unidos de Obama, os garotos brancos são golpeados e os negritos aplaudem”, disparou.

O delírio como categoria política
“Lower taxes, less government, more freedom” (Impostos mais baixos, menos governo, mais liberdade) é o lema do Freedomworks. Como em tantos outros fóruns ultraconservadores, colocaram-se em pé de guerra contra um discurso de Obama para crianças de uma escola de Virgínia no dia do início das aulas, onde o presidente disse coisas tão terríveis como sugerir que trabalhassem duro para atingir o êxito. “Necessitamos que cada um de vocês desenvolva seus talentos, sua inteligência e suas habilidades para poder resolver nossos problemas mais difíceis. Se não fizerem isso, se abandonarem a escola, não si estarão abandonando a vocês mesmos, como também a vosso país”. E pediu aos estudantes que mandassem cartas para “ajudar o presidente”. Mas o que em qualquer parte seria aceito como um estímulo politicamente correto aos jovens, as delirantes cabeças da extrema-direita norte-americana – amante das armas, da supremacia branca e inimiga número um do Estado – interpretaram a mensagem como uma lavagem cerebral própria de ditadores como Mao, Stalin ou o genocida cambojano Pol Pot. Grupos como Focus on the Family pediram neste dia aos pais para que boicotassem o ato, que foi transmitido para outras escolas.

Mas hoje a batalha é pela saúde. Os conservadores e “libertários” de direita (libertarians) se opõem à reforma de um sistema de saúde que exclui quase 50 milhões de pessoas (15% da população), acentua as desigualdades e deixa todo mundo nas mãos de planos de saúde privados. Em um artigo na revista Umbrales de América del Sur, Ernesto Semán escreve que a metade dos pedidos de falência individuais durante 2007 estão relacionados com o pagamento de contas médicas daqueles que carecem de um seguro médico abrangente. E Michael Moore, em seu famoso documentário, comoveu aos espectadores com os perversos padecimentos que sofrem os “segurados” frente aos advogados contratados pelas empresas de saúde para encontrar razões legais para rechaçar os tratamentos.

Ameaça de morte pelo Facebook
“Nem sequer é um dos nossos”, dizia uma manifestante que distribuía fotocópias da certidão de nascimento de Obama, assegurando que ele não é um cidadão norte-americano, em uma das marchas de protesto, em setembro. “Temos um presidente ilegítimo. Um presidente que vai acabar com a América e os americanos. Chegou o momento de agir, abaixo o governo”.

Neste clima, os serviços secretos dos EUA começaram a levar o assunto muito a sério e iniciaram uma investigação sobre uma pesquisa criada na rede social Facebook, na qual se perguntava se Obama deveria ser assassinado. A enquete foi retirada pela empresa por “conteúdo inapropriado”, o que impediu que os resultados fossem conhecidos. “Cada dia ganha mais peso a possibilidade de que os militares tenham que intervir como último recurso para solucionar o problema Obama”, escreveu o colunista do site Newsmax, fórum de encontro de extremistas na internet, reproduzido no matutino El País. E na rebelião contra a reforma da saúde, que levou a direita para a rua, confluem dezenas de organizações conservadoras, desde o Clube para o Crescimento, o Instituto para a Empresa Competitiva, até o obscuro Centro para os Direitos Individuais Ayn Rand – assinala o jornalista Michael Tomasky, na prestigiada revista The New York Review of Books, que estima que este movimento do partido do chá poderia ter o apoio de aproximadamente 25% do eleitorado estadunidense.

A influência de Ayn Rand
A filósofa Ayn Rand – autora de A Nascente (1943) e Quem é John Galt? (1957) – é uma boa base para entender os chamados “minarquistas” (partidários de um Estado super mínimo) ou os liberais libertários (libertarians). Nascida na Rússia em 1905 e emigrada para os EUA em 1925, foi uma defensora sem matizes do egoísmo racional, do individualismo extremo e do capitalismo laissez-faire. Ela escreve em A Nascente: “O ego do homem é a nascente do progresso humano”. Com efeito, o personagem da novela é um arquiteto com “um ego puro e cristalino não contaminado pelo detrito de vulgaridade coletiva”. Nada o perturba; nem os clientes nem as penúrias econômicas conseguem transformar sua idéia de beleza que exterioriza por meio de suas angulosas construções e arranhas céus. Deste modo, se conquista o ódio dos coletivistas, daqueles que aspiram à felicidade do conjunto e matam o ego para obter algo que está fora de seu alcance: a felicidade coletiva.

“O verdadeiro egoísmo é belo, natural, gratificante; não há nada mais harmônico do que seres humanos trocando o produto de seu esforço, de sua criatividade. É um ato de amor. A piedade, porém, implica superioridade; o altruísmo implica desprezo superlativo em relação ao humano; a solidariedade implica submissão, dominação, infelicidade. A única solidariedade possível é a lealdade consigo mesmo, porque aquele que não ama a si mesmo, não pode amar aos demais. O que assim age sente unicamente desprezo e só busca mitigar sua carga de culpa, redimindo-a com um ato de oferenda ao monstro devorador de almas”, diz um blog entusiasta desta filosofia “objetivista”.

Quem é John Galt? é ainda mais explícito: “Essa história apresenta o conflito de dois antagonistas fundamentais, duas escolas opostas da filosofia, duas atitudes opostas diante da vida. Como forma breve de identificá-las, as chamarei de o eixo “razão-individualismo-capitalismo” contra o eixo “misticismo-altruismo-coletivismo”, explicava a autora em uma conferência no fórum Ford Hall, em 1964. O livro divide a fibra social dos EUA em duas classes: a dos saqueadores e a dos não saqueadores. Os saqueadores estão dirigidos pela classe política, que pensa que toda atividade econômica deve ser regulada e submetida a uma forte imposição fiscal. Já os não saqueadores são homens empreendedores que pensam que a solução está justamente no contrário. A trama: surge um movimento de protesto dos “homens da mente”, acompanhado de sabotagens de empresários e empreendedores, que desaparecem misteriosamente. O líder deste movimento é John Galt, ao mesmo tempo filósofo e cientista. Galt, desde seu esconderijo nas montanhas, dá ordens, sugere iniciativas e move todos os fios. Junto a ele se refugiam os principais empresários. Durante o tempo que dura a greve e a desaparição dos empresários, o sistema americano vai soçobrando sob o peso do cada vez mais opressivo intervencionismo estatal. A obra termina quando os empresários decidem abandonar seu esconderijo nas Montanhas Rochosas e regressam a Wall Street e aos centros de decisão; marcham tendo o dólar como estandarte, símbolo escolhido por Galt como ícone de sua singular rebelião.

“Por que não colocar um site para que a gente vote pela internet, como um referendo, para ver se realmente queremos subvencionar as hipotecas dos perdedores, ou nos dar a chance, ao menos, de comprar carros e casas em execução hipotecária e dar às pessoas uma oportunidade de prosperar realmente e recompensar aqueles poderiam levar a água ao invés de bebê-la?”, perguntava-se na cadeia CNCB um de seus jornalistas em Chicago, em fevereiro deste ano, na conhecida como “diatriba Santelli” – que apelou abertamente a Ayn Rand assim que a administração Obama anunciou um plano de 75 bilhões de dólares para ajudar vários milhões de proprietários de casas a evitar a execução. Ali nasceu o “partido do chá”, que se expandiu como um rastro de pólvora.

"Parasita em chefe"
Michael Tomasky, no artigo citado, distingue a ira “genuína” da parte da cidadania que rechaça o resgate bancário, o resgate da indústria automobilística e inclusive a reforma da saúde, de outros tipos de ódio, “menos respeitáveis”, contra o primeiro mandatário afroamericano, como o epíteto de “Parasite-in-Chief” (parasita em chefe, parafraseando o título de Comandante em Chefe do Presidente dos EUA), ou “Obammunism is Communism”. Essa histeria chegou a tal ponto que o colunista Thomas Friedman comparou a atual situação vivida nos EUA com os meses anteriores ao assassinato de Isaac Rabin em Israel, em 1995. “Esse paralelismo me revolve o estômago. Não tenho problema com as críticas razoáveis, venham da direita ou da esquerda”, escreveu Friedman no The New York Times, “mas a extrema direita começou a se dedicar a deslegitimar o poder e criar o mesmo clima que existiu em Israel antes do assassinato de Rabin”.

Tomasky sustenta que com apoio de corporações e canais de televisão – recursos com os quais a esquerda não contava quando protestava contra o neoliberalismo de Ronald Reagan -, é possível que esta batalha de rua dos ultraconservadores e ultraliberais seja parte da paisagem política dos próximos anos. O jornalista do The New York Review of Books descreve o mecanismo dos chamados grupos “césped artificial”, supostamente alimentados por espontâneos cidadãos indignados. Primeiro, um grupo sem fins lucrativos empreende uma campanha dedicada a uma causa particular. Adota um nome que soa bonito e lança uma campanha supostamente espontânea. Logo vem o dinheiro oculto de empresas, fundações e conservadores ricos: obviamente, uma imagem da fúria popular-cidadã ampliada será mais persuasiva do que a imagem de um gigante corporativo perseguindo seus estreitos e desnudos interesses.

Um desses grupos é Americans for Prosperity (Americanos para a Prosperidade) que lançou o site Pacientes Unidos Agora. Em anúncios televisivos, mostravam, por exemplo, uma mulher canadense (Shola Holmes) que, por culpa do excessivo tempo de espera do “socialista” sistema de saúde desse país vizinho não podia operar um tumor cerebral e foi obrigada a ir para uma clínica privada nos Estados Unidos...Mais tarde, a imprensa de Ottawa informava que, na verdade, Holmes não tinha nenhum tumor, só um quisto benigno. Em um encontro na Flórida para discutir o projeto do novo sistema de saúde, o militante de um grupo ultraconservador foi mais preciso: “O que Obama está buscando é uma revolução social”. (E, na verdade, o projeto é revolucionário para os EUA: a reforma proíbe, por exemplo, expulsar do sistema aqueles que estão gravemente enfermos, mesmo que deixem de pagar os seguros privados; além disso, estabelece uma concorrência entre as seguradoras privadas e um novo seguro de saúde, administrado pelo Estado).

Mas não são apenas grupos conservadores que estão nesta batalha. A America’s Health Insurance Plans, a gigantesca seguradora privada, segundo repórteres da imprensa progressista, teria mobilizado seus 50 mil empregados para as eleições municipais deste verão (estadunidense) para lutar contra a reforma Obama, em um país onde a saúde é um grande drama econômico e humanitário nacional.

Tomasky destaca que, hoje, milhões de estadunidenses só vêem os canais de notícias que dizem o que eles querem ouvir, como Glenn Beck, da Fox, que “descobriu” no relevo do Rockefeller Center sinais ocultos que – convenientemente olhados – conformariam a foice e o martelo comunista (sic). Beck é também famoso por dizer que Obama é um racista com um profundo ódio aos brancos e à “cultura branca”. Em algumas noites, ele tem mais de três milhões de espectadores.

Como explica Seman, a efetividade do discurso ultraconservador para capturar o debate, para recuperar-se depois de uma eleição na qual apareceu relegado às margens da política, e para inibir e debilitar seus oponentes, tem a ver com a maleabilidade do liberalismo político norteamericano e o êxito que tem, há mais de meio século, em apresentar a mudança social como uma ameaça totalitária. E agrega: Nos Estados Unidos, a expressão “cobertura universal” é usada como acusação. É comum nestes dias ver na televisão algum deputado republicano atacando seu colega democrata aos gritos de: “O que o deputado está propondo é uma cobertura universal automática”. Mais surpreendente ainda é, imediatamente depois, ver o deputado democrata defendendo-se da acusação. “De nenhuma maneira proponho uma cobertura universal. O que queremos é fazer um sistema mais eficiente e justo, e menos custoso”.

A derrota de Bill e Hillary Clinton quando tentar aprovar uma reforma da saúde similar foi um ponto de inflexão. Obama trava uma luta parecida agora contra os inimigos do “big government”.

Moral da história: uma dose moderada de liberalismo parece ser boa para defender a democracia e prevenir-se de totalitarismos. Mas, como tudo, em excesso parece deixar doentes (psicologicamente) as pessoas, que, aliás, foram deixadas previamente sem seguro médico.

Tradução: Katarina Peixoto


Fonte: Site Carta Maior

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Peixinhos para começar o dia bem.